JESUS AMALDIÇOA UMA ÁRVORE QUE NÃO PRODUZ FRUTOS (Mc 11, 12-26)
1. A FIGUEIRA ESTÉRIL
Esta ação de Jesus é incomum e se compreende, logo, que ela tem um significado simbólico.
Não é a árvore que Lhe interessa, mas, com ela, Jesus quer exprimir quanto afeta o Seu coração o destino do povo eleito. Sobre o povo de Israel repousa uma especial bênção divina. Abençoar uma coisa significa dar-lhe uma destinação sagrada e desejar que produza bons frutos. Quando Deus cria os animais e o homem, os abençoa (Gn 1, 28); é por isso, explica a Bíblia, que eles recebem a capacidade de crescer e se multiplicar.
O termo contrário a "abençoar" é "maldizer", isto é, não desejar nem a vida nem outros benefícios; por isso é que se amaldiçoa.
De geração em geração, o povo de Israel trouxe sobre si uma particular bênção de Deus, que dos pais passava para os filhos. Qual foi o resultado? Que o povo de Israel não produziu fruto e perdeu a fé de Abraão.
Assim acontece com a alma que Deus abençoa. Na Igreja, a primeira bênção é o Batismo, mas a esta bênção deve corresponder a colaboração humana, para que o Batismo não seja em vão.
A Igreja de Jesus Cristo, dependendo do seu lado humano que são os seus filhos – nós, os batizados, eu e você! – também pode vir a ser uma figueira de linda e exuberante folhagem (aparato externo, barulho, festa, etc.), mas sem um espírito que a anima por dentro, dando sentido a tudo o que nela se faça. Antes, é preciso crer que a Igreja é Deus fazendo para nós; aqueles que recebem o que Deus lhes prepara e faz, podem, por sua vez, retribuir ao Senhor com o próprio esforço, a nossa criatividade e fidelidade.
2. NÃO ENCONTROU SENÃO FOLHAS
As folhas de figo são grandes, verdes. Por isso, a figueira era plantada na frente das casas para se gozar da sua sombra. Mas, as folhas sem fruto são símbolos de vaidade, de superficialidade, assim como com o tempo podem se tornar os ideais, a religião, e, finalmente, a oração.
Os hábitos exteriores e as manifestações são mantidos mais pelo espírito que lhes deu origem.
Um provérbio francês diz que o relógio não para no momento em que se esquece de carregá-lo, mas mais tarde, improvisamente.
Léon Tolstoj, nas suas recordações de viagem, conta sobre um oficial do exército com quem viajou, que, antes de se deitar, pendurava um ícone na parede e recitava uma oração. Um dia, Tolstoj comentou o fato dizendo: "Você faz isso ainda?" Na manhã seguinte, o oficial não o fez, nem o fez mais depois disso. É possível, pergunta-se a si mesmo Tolstoj, que alguém possa perder a fé por um pequeno comentário que se lhe faça? Certamente não. Aquele homem já não acreditava há muito tempo, a sua oração era apenas uma atitude exterior. Uma pequena observação dirigida a ele pareceu-lhe que ela já não lhe era necessária.
Que fazer então? De tanto em tanto, é bom verificar os nossos costumes religiosos e renovar o espírito. Os exercícios espirituais servem justamente para isso.
O comércio descobriu e aconselha a validade de um momento em que tudo deve ser fechado "para balanço": O que compramos? O que vendemos? O que sobrou no estoque? Como "desová-lo?" O que ganhamos? O que perdemos? Qual a nossa reserva? Qual o nosso "furo"?
Devemos aprender com os filhos das trevas e aplicar à nossa vida espiritual esses momentos de "balanço", de "fechamento de caixa diariamente". Momento privilegiado para isso é o tempo que disponibilizamos para a nossa oração pessoal, sozinhos, sob o olhar amoroso do nosso Pai.
A nossa vida "espiritual" pode ser apenas uma questão de "folhas" (desfiar vocal ou mental de orações devocionais, com o "coração longe do Senhor"). Quantidade de preces, quantidade de tempo que se "reza", quantidade... Folhas! Só folhas que logo murcham, caem, secam, são amontoadas e se queimam...
A nossa Igreja será uma linda e preciosa figueira se cada um de nós deixar cair suas folhas para aparecerem os frutos.
3. AQUELA NÃO ERA, DE FATO, A ESTAÇÃO DOS FIGOS
A figueira dá frutos duas vezes ao ano. Os primeiros não são muito saborosos; os segundos, ao final da estação, são os melhores.
Parece estranho que o Senhor procure figos numa estação em que a árvore não os produz, mas o fato serve evidentemente para introduzir a parábola que segue.
O trigo é recolhido no seu tempo ou nunca, enquanto os frutos se recolhem quando estão maduros. Toda planta tem seu tempo próprio de maturação do fruto: todas as macieiras por exemplo florescem na primavera, mas dão frutos no outono.
O homem, ao invés, não sabe quando Deus chegará, não conhece nem o dia nem a hora da Sua vinda (Mt 24, 44). Devemos, portanto, estar sempre prontos. Alguns são maduros para o reino de Deus ainda jovens, outros em idade adulta, outros na velhice. Por isso, os livros espirituais dão este conselho: faze o bem como se devesses morrer hoje mesmo, o amanhã ou não virá ou será um novo dom de Deus, como um novo mandato.
A laranjeira comporta-se exatamente assim: enquanto dá os frutos, começa a florescer de novo, como deve ser uma vida boa.
Prepara o futuro, mas faz com que teu presente seja útil e frutuoso!
Deus quer de nós a prontidão das sentinelas, "do servo que está sempre a postos para quando o seu Senhor voltar". É uma misericordiosa piedade do Senhor para conosco nos deixar na ignorância da nossa "hora"... Correríamos o risco de, estando longe o tempo da poda, ir "empurrando com a barriga" o tempo de frutificar; ou, estando perto, nos atropelar a nós mesmos nos sobrecarregando ainda mais com coisas que não vamos levar daqui.
O que nos cabe, então, senão viver o momento presente com sabedoria e seriedade, abandonados à ação do Espírito Santo? Não há maior felicidade do que se saber objeto da atenção de Deus e, por isso, na fidelidade, procurar em tudo dar frutos que Lhe agradem.
(Tradução livre de Amma Maria Ângela, do livro "Il vangelo di ogni giorno" – III Tempo "per annum" 1, de Tomás Spidlik – Ed. LIPA 2004).
(Os comentários da tradutora estão em itálico após cada ponto da reflexão).
(Estaremos juntos todas as terças-feiras, às 14 horas, na Rádio Gospa Mira FM 105, 7 ou na rádio online do site: www.gospamira.com.br).
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