ENCONTRO DE FORMAÇÃO PARA ADORADORES-INTERCESSORES-MECEs
1. VIVENDO O MISTÉRIO DA LITURGIA
AUTORIA – Pe. Antonio Rivero, LC
TRADUÇÃO LIVRE – Amma Maria Ângela de Melo Nicolleti, NA
FONTE – www.es.catholic.net
Se a Liturgia é o mistério do rio de vida que brota do Pai e do Cordeiro, e se nos alcança e arrasta, e nos embebe e sacia quando a celebramos... é para que a nossa vida seja regada e fecundada por ela, isto é, a Liturgia deve ser vivida, deve nos transformar.
As celebrações são o momento da semeadura, porém, depois, tem que acontecer a vida que dá frutos saborosos. Se celebramos o Ágape divino, devemos viver esse amor ao nosso redor. Se celebramos a santidade de Deus, devemos refletir essa santidade de Deus em nossa vida e em cada um dos nossos gestos. Se celebramos a morte e ressurreição de Cristo, devemos morrer a nós mesmos para viver a experiência do homem novo, como nos diz São Paulo.
Por que às vezes se dá esta separação: de um lado, a celebração; de outro, a nossa vida não corresponde a essa celebração? A resposta é simples: por causa do pecado e da nossa miséria. Não deve haver divisão nem dicotomia entre Liturgia e vida.
Isto se deu antes da vinda de Cristo, no Antigo Testamento, pois não se contava com a graça de Cristo. Porém, agora, sim, temos essa graça da unidade, entre o ritual sagrado e a conduta moral: "O MESMO CRISTO QUE CELEBRAMOS DEVE SER O MESMO CRISTO QUE VIVEMOS." Dizer Liturgia vivida é levar uma vida nova, agir como Cristo, pensar como Cristo, amar como Cristo, sentir como Cristo. Cristo ressuscitado é nossa fonte e nossa vida nova.
1- NA ORAÇÃO FAZEMOS VIVA A LITURGIA
Somente se levamos essa Liturgia ao coração, essa Liturgia se faz oração em nós e nos transforma. É no coração que nos encontramos com essa fonte de vida divina. É no coração que o homem se sente em casa; é o lugar do encontro autêntico conosco mesmos, com os demais e com Deus vivo. O coração reclama uma presença.
O coração é o lugar da decisão, o momento do "sim" ou do "não". O coração tende para essa Presença que sacia e somente no coração se dá esse encontro com Deus, se o abrirmos. E o abrimos se rezamos.
E quem nos faz entrar em oração é o Espírito Santo. Ele é o pedagogo da nossa oração. É indispensável começar por Ele e com Ele. Ele faz Cristo ressuscitado entrar no coração. O Espírito Santo é Quem nos desperta para a oração. Não somente é Ele que vem a nós; nós também entramos nele.
E, na oração, o Espírito Santo nos faz pronunciar "Jesus", e entramos no mistério, e viveremos nosso Batismo nEle, Lhe oferecemos tudo, seremos invadidos por Sua divindade.
É no coração, como centro da pessoa, onde está a tumba, e ali o mesmo coração depõe o corpo sempre suficiente de Cristo, na certeza de que o Autor da Vida, Deus, O ressuscitará. Ali, no coração, está a tumba de onde o Vivente desce aos nossos infernos para nos arrancar da morte e grita para nós, como reza a segunda leitura da Liturgia das Horas do Sábado Santo: "DESPERTA, TU QUE DORMES, E LEVANTA-TE DENTRE OS MORTOS E CRISTO TE ILUMINARÁ!"
É na oração, onde não somente levamos os perfumes a um morto, senão que levamos o grito de esperança a quem não crê: "RESSUSCITOU", lhe dizemos.
Nosso coração e nossa oração se fazem eclesiais. Na oração, somos Igreja. E sobre o altar do nosso coração oferecemos toda a nossa vida. E somente o que colocamos no altar será transformado pelo Espírito Santo.
Se colocarmos pouco, pouco será transformado. Se colocarmos todo o nosso ser, todo o nosso ser será transformado.
Quanto mais limpo e desapegado estiver o coração, mais se enche do Espírito Santo. Quanto mais humilde e confiante for o silêncio do coração, mais Jesus o dilata com Sua presença e nos convertemos em santos e nosso coração se abrirá a todas as graças que Deus nos quer oferecer através da Liturgia. Essas graças nos santificarão. Não somos nós que nos santificamos; é Deus, fonte de santidade, Quem nos santificará se deixarmos e Lhe abrirmos nossa alma.
Dá-nos medo esta santidade, quando nosso homem velho recusa a oração. Abandonando o altar do coração, pretendemos compensar nosso sacerdócio real trabalhando sobre as estruturas deste mundo, como se estas pudessem fazer vir o Reino!
Não queremos afrontar nossa morte, a morte às nossas ambições, às nossas vaidades, aos nossos planos pessoais. Antes de trabalhar sobre as estruturas econômicas, sociais e políticas deste mundo, há que se trabalhar primeiro sobre o coração de cada um de nós e convertê-lo e santificá-lo. E isto o conseguimos a partir da oração. E um coração santo porá estruturas santas.
Quando o coração se decide a orar, entra no Espírito e em Cristo, participa na epiclesis da Igreja e está na vanguarda do combate, do grande combate pascal. Na oração, o Espírito nos fortalece para o combate, despoja-nos das nossas armas pesadas e irrisórias, como sucedeu ao pequeno Davi, para nos revestir da armadura leve do Filho de Deus, as armas da cruz.
Na oração, não há celebração festiva. Não. Há muita luta, e a oração ajuda aos que deixaram as armas de si mesmos, para que voltem à batalha, na esperança da vitória de Deus. Então, o coração em oração se converte em mesa do banquete, onde todos nos sentamos, especialmente os pobres e aleijados, esperando que venha depois o banquete eucarístico, onde compartilharemos o mesmo Pão. E, com a oração, vai-se conseguindo, num certo sentido, a deificação ou divinização do homem mediante a Liturgia.
Se com a oração consentimos que nos invada o rio da vida divina, nosso ser todo inteiro será transformado, nos tornaremos árvores de vida e poderemos dar sempre o fruto do Espírito: amar com o próprio amor. E o próprio amor é Deus.
A este mistério da transformação em Deus, mediante a Liturgia vivida, chamamos de deificação. Transforma tudo em nós: corpo, alma, espírito, afetos, coração. Deificação significa participação da divindade do Verbo que Se uniu à nossa carne em nossa humanidade concreta. É a mesma vida de Deus que Jesus nos comunica, através dos Sacramentos. Nossa humanidade vai se revestindo da divindade.
Para dizer a verdade, desde que Cristo assumiu a nossa natureza humana, e morreu e ressuscitou, subindo ao céu, a nossa natureza, com tudo o que tem de bom ou de mau, já não nos pertence. Por isso, a única coisa que devemos fazer é não sermos rebeldes e abrir-nos ao Espírito para que essa deificação se ponha em marcha dia por dia. O Filho de Deus Se fez homem a fim de que o homem se faça filho de Deus, nos dizem os Padres dos primeiros séculos.
Onde se dá esta deificação? Na celebração da Liturgia, preparada pela Liturgia do coração na oração. Esta deificação não é súbita, senão progressiva e vita, e depende da disponibilidade da nossa terra. Às vezes, é lenta, porém, sempre é real, paciente.
Podemos romper, quebrar esta imagem de Deus pelo pecado. Será o Espírito Santo Quem restaurará essa imagem de Deus em nós, desfigurada por nossos pecados. O fogo do amor do Espírito Santo consumirá nosso pecado e o transformará em luz. Esta deificação crescerá por obra do Espírito Santo. Será Ele Quem fará essa obra-prima no nosso interior. Ele nos coloca em comunhão com a Trindade Santa. O único, pois, que atrasará esta deificação é nossa resistência ao Espírito, nossa soberba, nosso pecado.
Daí, nosso trabalho de ascese e sacrifício para lutar contra nossas tendências más, e oferecer todos os dias nossa natureza humana à obra deificante do Espírito. Esta obra de arte em nossa vida durará até o dia da nossa morte. Prova disro é a vida edificante e heróica dos santos que são todo um monumento à obra secreta do Espírito Santo neles.
NO TRABALHO E NA CULTURA
O "homo faber" – o homem artesão, trabalhador – é, em certa medida, um escravo de suas próprias obras até que chega a ser "homo liturgicus" – homem litúrgico. É aqui que Deus concede ao homem a graça da liberdade dos filhos de Deus e onde o homem oferecerá a Deus o produto de suas mãos para a maior glória da Trindade e benefício da humanidade inteira.
Já que a Liturgia é obra de Deus e do homem, não podemos deixar de lado o trabalho e a cultura. No trabalho e na cultura, o homem reflete o celebrado na Liturgia. É aí que o homem deve dar glória a Deus. O trabalho e a cultura são o lugar onde o homem e o mundo se encontram e refletem a glória de Deus.
Porém, para que o trabalho e a cultura sejam para a glória de Deus, é necessário que o coração do homem esteja em paz, em harmonia com Deus, porque do contrário, será um trabalho contra Deus, será anti-cultura.
E encontraremos a paz e a harmonia na medida em que vivamos a graça de Deus e lutemos contra o pecado. Se o rio da vida não invade primeiro o nosso coração, como poderá penetrar o campo do trabalho e da cultura, frutos do coração humano? Se a raiz está podre, os frutos estarão apodrecidos.
Se o Espírito deifica o homem é para que o homem humanize o mundo, e não o escravize nem o destrua. Em todo trabalho devemos levar a luz de Cristo. Só assim terá a marca de Deus.
Qualquer trabalho que façamos será incompleto, deficiente, alienante, escravizante, tentador, se não deixarmos que o penetre o poder do Espírito que o levará para além da morte e fará dele obra de luz. Se não vivermos isto assim, o que ofereceremos no altar da eucaristia?
Porém, o trabalho assim transfigurado chega a ser experiência de comunhão. E já não se darão as injustiças do trabalho, nem as estruturas alienantes, nem as desordens da economia (corrupção, malversação de fundos, subornos, exploração, etc...).
A Liturgia não supre a nossa inventiva no trabalh; faz algo melhor: como é sopro do Espírito, é profética, dado que discerne, denuncia, suscita creatividade e se traduz em obras, pede justiça e é serva da paz. Impulsiona a compartilhar.
A cultura é a transformação da natureza por meio da mão do homem e sua impregnação pelo Espírito. A cultura se alcança quando a natureza é humanizada e quando, por ela, o homem se faz mais humano.
Portanto, a cultura tem que ser iconografia do Espírito e do homem; do contrário, não é mais que a iconografia do inimigo de Deus. Isto o podemos experimentar hoje em tantos filmes, tantas canções e na literatura, que, ao invez d serem reflexos de Deus, são reflexos do Maligno, que trata de nos degradar com tanta sujeira e baixeza.
A cultura assim transformada pela luz do Espírito dá seu fruto: leva-nos à beleza que é Deus, sua fonte. Então, poderemos dizer como disse o Papa aos artistas: "A beleza salvará o mundo." Não a beleza em si, senão a beleza transfigurada e transpassada por este raio de luz divina.
NA COMUNIDADE HUMANA
Nesse viver a Liturgia, temos que superar um obstáculo: não nos contentar-nos em cumprir uma lei, umas normas, senão nos deixarmos transformar e deificar pelo Espírito, pois cumprindo umas normas sem esta disponibilidade ao Espírito, pareceria que a obra de santidade é mais obra nossa e não do Espírito.
Isto passa também pelas relações a nível social. Não podemos cifrar todas as nossas relações num código de normas para uma convivência civilizada (tentação moralista), ou num programa social (tentação socializante), como se o Espírito Santo pudesse ser reduzido a valores de justiça e solidariedade. A novidade deste mistério é muito mais.
Este rio de água viva tem que penetrar todo o tecido social e as sociedades humanas.
E é assim, porque este rio já está entre nós, dentro de nós. A invasão do Reino do Espírito num grupo humano é o evento da verdadeira comunidade entre as pessoas.
E Este Espírito é o que colocou nessas comunidades onde entrou os germens da comunidade, o chamado à solidariedade, a vocação para a paz, o respeito mútuo. E a luz do Espírito é também a que tirará a máscara da mentira inerente ao poder, da mudança do serviço em domínio, da perversão do grupo em estrutura de injustiça, da escravidão da pessoa ao ídolo do dinheiro. O Espírito Santo nos revela a sociedade como ícone do Reino.
Se esta luz do Espírito Santo não penetra, haverá uma Babel, isto é, injustiça, ódio, morte. Na sociedade onde não houver esta comunhão, esta comum união entre nós, haverá ausência de amor. E agravará ainda mais o peso do pecado e da morte.
Este rio de vida faz frutificar as árvores de vida, cujas simples folhas podem "curar as nações" (1 Jo 3, 18), e fazer-nos irmãos, em comum união.
Será a comunhão a nos fazer existir como Igreja. E esta comunhão exige de nós morrer a nosso "eu" para abrir-nos ao mistério do outro, como bons samaritanos.
Na liturgia do coração se aprende como se fazer próximo do homem ferido. Então, o Espírito Santo cura a relação, oferecendo-Se Ele mesmo, que é unção da nova aliança.
Temos que passar de uma humanidade de nações à do povo de Deus, tal é o serviço de comunhão confiado à Igreja: "SEREMOS SEU POVO E OVELHAS DO SEU REBANHO... NAQUELE DIA, JÁ NÃO HAVERÁ NEM LAMENTO NEM DOR, PORQUE AS COISAS ANTIGAS PASSARAM". (Ap 21, 3-4) |