Caritas in Veritate: a saída pelo alto
Adiada por quase dois anos a fim de sugerir caminhos em plena crise mundial, a nova encíclica de Bento XVI aponta a saída do túnel: é pelo alto, onde está Deus. Personalidades internacionais aplaudem o novo documento da Doutrina Social da Igreja.
Humanidade sem rumo
“Sem Deus, o homem não sabe para onde ir e não consegue sequer compreender quem seja.” Com estas palavras, o Papa Bento XVI abre a Conclusão da encíclica “Caritas in Veritate” [Caridade na Verdade], data de 29 de junho de 2009. Faz pensar nas três perguntas clássicas que o beduíno do deserto faz ao visitante: “Quem és? De onde vens? Para onde vais?” O cristão sabe que as três perguntas jamais terão resposta à altura se Deus não estiver no jogo: somos filhos de Deus, ele é nossa fonte e nosso alvo.
O Papa lembra a encíclica “Populorum Progressio”, de Paulo VI [26/05/1967], para quem “o homem não é capaz de gerir sozinho o próprio progresso, porque não pode por si mesmo fundar um verdadeiro humanismo. Somente se pensarmos que somos chamados, enquanto indivíduos e comunidade, a fazer parte da família de Deus como seus filhos, é que seremos capazes de produzir um novo pensamento e exprimir novas energias ao serviço de um verdadeiro humanismo integral”. (cf. CV, 78.)
Quanto ao dever da Igreja de se manifestar sobre questões sociais, políticas e econômicas, vale a pena recordar as palavras do Cardeal Ângelo Sodano, Secretário de Estado da Santa Sé, ao apresentar o “Compêndio da Doutrina Social da Igreja”: “Põe-se assim de manifesto como a Igreja não possa cessar de fazer ouvir a sua voz sobre as res novae [novas coisas ou realidades], típicas da época moderna, porque a ela compete convidar todos a prodigalizarem-se a fim de que se afirme cada vez mais uma civilização autêntica voltada para a busca de um desenvolvimento humano integral e solidário”. (29/06/2004.)
Impacto e surpresa
Entrevistado pelo jornal “Avvenire” [15/06/2009], o ex-diretor do Fundo Monetário Internacional Michel Camdessus considerou como “fundamental, sobretudo hoje,” a contribuição da encíclica social de Bento XVI. “Num momento em que o homem pode duvidar de si mesmo mais do que nunca, ela [a encíclica] é um formidável apelo à esperança.” Camdessus fala de sua impressão pessoal à primeira leitura: “É um texto que impactará, quase diria ‘desconcertará’, mas de modo positivo, a muitos cristãos empenhados na vida política, social e econômica. Muitos esperavam por uma mensagem sobre a crise financeira, mas a encíclica mostra que esta última é o sintoma de um problema muito mais profundo. Estamos em presença de uma hidra com sete cabeças. A crise mais imediata é financeira, mas a crise mais profunda é cultural. A esta se acrescenta a crise da pobreza, a energética, a ambiental, a do multilateralismo. Pelo menos seis ou sete crises se entrecruzam”.
Para Camdessus, o leitor da encíclica aborda um problema mais grave do que o imediatamente aparente. Mas se trata de uma descoberta tanto mais necessária devido à sua oportunidade histórica. Por outro lado, o ex-diretor do FMI se admira de que a “Caritas in Veritate”, em vez de trazer prescrições para a crise, como muitos esperavam, transporta o leitor diante de sua fonte, o próprio Céus, que é verdade e caridade.
Doutrina e Evangelho
Por ocasião da divulgação do texto oficial da “Caritas in Veritate”, em 7 de julho passado, o Cardeal Paul Josef Cordes pretende ver algo novo em relação ao modelo da “Populorum Progressio”. “Até agora, o acento da Doutrina Social estava acima de tudo na promoção da justiça; agora, ele se aproxima, em sentido amplo, da pastoral: a Doutrina Social é afirmada como elemento da evangelização. Isto é, o anúncio de Cristo morto e ressuscitado, que a Igreja proclama ao longo dos séculos, tem uma atualização também a respeito do viver social.”
O próprio Cardeal Cordes quis apontar dois aspectos da “novidade”: em primeiro lugar, não se pode ler a Doutrina Social fora do contexto do Evangelho e de seu anúncio, pois tal Doutrina nasce e se interpreta à luz da revelação; em segundo lugar, ainda que a Doutrina Social não se identifique inteiramente com a evangelização, é um de seus elementos, pois o Evangelho considera o viver humano também nas relações sociais e nas instituições que delas nascem. Assim, não são estranhas à Igreja temáticas como o ambiente, o mercado e a globalização, e as questões éticas ligadas à vida e à cultura, nos mais diversos âmbitos da atividade humana.
Deus está na História
Na mesma ocasião, o Cardeal Renato Martino destacava as mudanças no panorama mundial, no curto lapso de menos de vinte anos que separam a publicação da encíclica “Centesimus Annus” [João Paulo II, 1º de maio de 1991] e da “Caritas in Veritate”. Entre estas mudanças, lembrou a perda de virulência das ideologias políticas até então dominantes, a acentuação da globalização e o fim do bipolarismo, o choque entre as manifestações do laicismo militante e a ascensão dos temas religiosos nos painéis internacionais, ao lado da recessão de algumas potências mundiais, com notáveis alterações no equilíbrio geopolítico mundial.
Para Martino, a nova encíclica de Bento XVI encara a situação de crise à luz dos princípios de reflexão e dos critérios da DSI, dentro de uma visão mais ampla da economia, de seus fins e da responsabilidade de seus atores. Não se veja na “Caritas in Veritate” uma espécie de encorajamento sentimental, disse o Cardeal, mas “um encorajamento fundamentado, consciente e realista, porque no mundo estão envolvidos muitos protagonistas e agentes de verdade e de amor, e porque o Deus que é Verdade e Amor opera sempre na história humana”.
Em suma, nenhuma crise será superada enquanto a moeda do Amor não entrar nas negociações... (ACS)
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Frases da “Caritas in Veritate”:
- O humanismo que exclui Deus é um humanismo desumano.
- A caridade é a via mestra da Doutrina Social da Igreja.
- Toda vida é vocação.
- A economia tem necessidade da ética para o seu correto funcionamento.
- São os povos os autores e primeiros responsáveis do próprio desenvolvimento.
- A Igreja sente o seu peso de responsabilidade pela criação e deve fazer valer esta responsabilidade também em público.
- O desenvolvimento dos povos depende sobretudo do reconhecimento de que são uma só família.
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