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SÉCULO XXI: A ERA DA FOME?


Século XXI: a era da fome?

Sempre houve fome na Terra. Mas eram epidemias de fome que passavam rápido, tão logo cessavam suas causas naturais, como os sete anos de “vacas magras” no Egito. A partir dos anos 70, no Séc. XX, a fome se torna endêmica e se enraíza em áreas crescentes do planeta. Quais as suas causas? Encontraremos o remédio?

 

A triste mudança

A primeira década do Séc. XXI mostra suas garras: a louca escalada do petróleo, a demanda de cereais acima da oferta, graves alterações climáticas, redução da biodiversidade, esgotamento dos mananciais aqüíferos e das terras agricultáveis. Noves fora, fome!

Cerca de um bilhão e meio de pessoas, hoje, não tem como fazer uma refeição diária. O Sahel, Bangladesh e Etiópia são tristes exemplos desta realidade. Há 50 anos atrás, um agricultor africano colhia 10 quintais de grãos; guardava 8 para alimentar a família e sobravam 2 quintais para vender, a US$29 (na cotação atual). Dispunha, pois, de US$57 para as despesas básicas. Já em 2001, a cotação caíra para US$15 o quintal de grãos, e ele precisava vender 4 quintais para comprar apenas o essencial. Já não dispõe do alimento necessário para alimentar sua casa. Sobreviverão?

 

Os quatro patamares

Segundo Marcel Ganzin, da divisão de políticas alimentares da FAO, as nações podem ser classificadas em quatro níveis:

1. produtores de cereais e de petróleo;

2. produtores de petróleo, importadores de cereais;

3. produtores de cereais, importadores de petróleo;

4. importadores de cereais e de petróleo.

Com a crescente crise alimentar, a situação dos países de nível 4 se torna insustentável. Se o grupo 1 se mostra economicamente intocável, o grupo 2 ainda se defende, apesar de vulneráveis no campo da alimentação. As nações do grupo 3 passam apertos, mas ainda dispõem de recursos técnicos para se defender. Sem ironia, podemos falar de um Quarto Mundo: as nações do patamar nº 4, vulneráveis em todos os aspectos e as maiores vítimas da globalização que elas mesmas não pediram.

 

As causas da fome

Algumas causas são malignas: catástrofes naturais, alterações do clima, guerrilhas locais, subsídios agrícolas sustentados pelo 1º mundo e o desgaste do solo pressionado pela gula da superprodução, ao lado do esgotamento dos lençóis aqüíferos e do notável desperdício de recursos em armamentos e bens supérfluos, com prejuízo do investimento em aspectos essenciais da sobrevivência.

Mas há causas “benignas”. Entre os principais fatores que explicam a fome atual, figuram:

- o progresso da medicina no controle de doenças e epidemias;

- o sucesso das campanhas de saúde pública;

- a redução da mortalidade e o crescimento da população em decorrência dos dois fatores acima;

- o progresso de amplas camadas da população, que passaram a consumir muito mais do que antes.

Especialistas em agricultura e produção de alimentos sustentam, porém, que a Terra está longe de ter esgotado seu potencial. As novas tecnologias poderiam triplicar os níveis atuais de produção de grãos. Problemas de logística, como transporte e armazenamento, são responsáveis por volumoso desperdício das colheitas atuais.

 

A vida frugal

Entre os remédios para a fome do homem, dois deles mal começam a ser relacionados na receita do mundo capitalista. Curiosamente, sempre foram ingredientes do cardápio do Evangelho: a partilha e a frugalidade. Quem tem mais reparte com quem tem menos. Quem comia por três, passa a comer o suficiente e permite que outros dois participem da mesa.

Por incrível que pareça, eventos indesejáveis – como o “apagão” elétrico vivido recentemente no Brasil e a atual elevação dos preços do petróleo – ensinam a população a viver de forma mais simples e frugal. Naturalmente, o planeta agradece. E todos são levados a repensar o sentido da palavra “economia” [do grego, óikos, casa, e nómos, regra, norma] como o conjunto de regras para dirigir a “casa”. Na visão de Paul Ekins, economista da Universidade Keele (Inglaterra), “os fenômenos da acumulação capitalista engendrados pelo princípio da concorrência criaram profundo mal-estar na sociedade. A família e a comunidade deterioram ou se decompõem; os comportamentos anti-sociais (crimes e delitos, vandalismo, toxicomania) multiplicam-se; o desemprego tende a perder seu caráter cíclico para se tornar estrutural”.

Ekins pergunta: “Que noção, senão a frugalidade, poderia atenuar a obsessão da sociedade moderna pelo crescimento e, simultaneamente, valorizar outras fontes de felicidade, como a família unida, a segurança e a convivência no seio da comunidade, a satisfação no trabalho, a boa saúde, o sentimento de ser alguém e de ser útil à sociedade, um ambiente variado, belo e saudável, uma sociedade aberta e democrática?”

 

A voz da Igreja

Em 4 de outubro de 1996, festa de São Francisco de Assis, o santo pobre, o Conselho Pontifício Cor Unum publicava o documento “A Fome no Mundo”. Ali, a voz da Igreja apontava caminhos para resolver o problema da fome: a escuta dos pobres, a integração social, a busca da paz e o urgente desarmamento, respeito ambiental, acesso ao crédito e ação comunitária.

A última parte do texto fala na “reforma do coração”. “A fome no mundo faz-nos pôr o dedo nas feridas dos homens em todos os níveis: a lógica do pecado, que se insere no coração do homem, está na origem das misérias da sociedade, devido à ação das chamadas ‘estruturas de pecado’. Para a Igreja, o egoísmo culpável e a busca desenfreada do dinheiro, do poder e da glória questionam o próprio valor do progresso como tal.” (Nº 64.)

E mais: “O cristão está a serviço dos seus irmãos em todos os aspectos da sua atividade e da sua vida. O amor ativo empenha todos os cristãos, tanto nas suas atividades quotidianas como em suas iniciativas pessoais. Tanto o empenho dos cristãos quanto suas ações humanitárias e caritativas procedem do mesmo apelo à missão”. (Nº 71.)

E como pano de fundo, a voz de Cristo: “Foi a mim que o fizestes...” (ACS)

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