Antônio Carlos Santini 1
E-mail: santini@novaalianca.com.br
Missa de domingo na paróquia. Liturgia da Palavra. Lido o Evangelho, o pregador começa a homilia:
- “Irmãos e irmãs, esta perícope escatológica aponta para a parusia...” Dona Flausina olhou para o teto. Seu Aristides olhou para o relógio. Totonho tirou uma melequinha do nariz. O pregador acabara de realizar um milagre notável: com uma única frase, demonstrou que sua mensagem não iria interessar a ninguém.
Claro que isso não tem graça. Ao contrário, é uma autêntica desgraça! A formação acadêmica vai distanciando cada vez mais os padres do povo real, aquela gente que trabalha e sua a camisa para ganhar o pão de cada dia, sacrifica parte do dia de descanso para buscar uma palavra de vida e recebe, apenas, teorias e ideologias...
Somente como paralelo, na Inglaterra, um jovem formando em medicina não recebe autorização para clinicar por conta própria. Canudo na mão, deve procurar um profissional experiente que lhe servirá de supervisor. Após dois anos de supervisão, o jovem médico volta à faculdade para um re-exame final. Se passar, é autorizado a abrir seu próprio consultório. Se não for aprovado, recomeça o trabalho sob os olhos do tutor experiente. Isto se chama “responsabilidade”.
No caso de nossos seminaristas, ocorre, às vezes, que eles são ordenados e enviados em missão, levando na bagagem apenas as teses acadêmicas que ouviram nos modernos seminários que, para obterem a chancela do Ministério da Educação, aceitaram pressões para tornarem seus cursos meros bacharelados em “ciências da religião”. Em alguns Institutos, nada de mística, nada de ascética, e a Palavra de Deus necropsiada sob os microscópios da exegese racionalista.
Natural, os jovens padres assim formados assumem uma paróquia de classe média e tentam passar ao povo aquilo que lhes foi dado: uma visão acadêmica da religião. Se o povo esperava do pregador e pastor algumas luzes para iluminar seu dia-a-dia, feito de filhas rebeldes, filhos drogados e casamentos abalados, a decepção será inevitável. Não admira que tantos fiéis tenham passado para as seitas pentecostais, onde encontram algum tipo de consolo e de atenção personalizada. Em cada paróquia, o catequista por excelência é o próprio pároco. Ou devia ser. Na prática, sob a alegação de falta de tempo, a missão catequética é transferida integralmente para leigos e, em muitos casos, para mocinhas imaturas que mal saíram da crisma. Na verdade, são muitos os catequistas que sequer foram crismados.
As duas realidades falam da mesma coisa: falta de responsabilidade. Confiar a Palavra de Deus e a formação religiosa a pessoas que não foram preparadas para a missão. E enquanto as coisas não mudarem, Seu Aristides continuará olhando para o relógio. Dona Flausina continuará olhando para o teto. E Totonho prosseguirá na limpeza do salão...
1 Licenciado em letras – Português e Francês pela FFCL da Fundação Rosemar Pimentel, Barra do Piraí, RJ. Professor de Artes e Ciências Humanas. É membro da Comunidade Católica Nova Aliança, evangelizador, compositor, autor de vários livros de catequese e poesia, tradutor de francês, italiano e espanhol, colabora em vários jornais e revistas.