Antônio Carlos Santini 1
E-mail: santini@novaalianca.com.br
Não sei por que, prezado Saramago, sempre que alguém se despede deste mundo, ficamos com a impressão de que perdemos a oportunidade de dizer alguma coisa ao finado. Até ontem ele estava aqui. Hoje, já atravessou o rio e precisou dos favores de Caronte. Se havia alguma coisa a ser dita, agora é tarde...
Foi assim com seu conterrâneo, o poeta Luís Vaz de Camões, quando morreu sua amada, a quem dedicou o soneto “A Natércia” (anagrama de Caterina?). Na ocasião, o poeta pedia:
“Alma minha gentil que te partiste
Tão cedo esta vida descontente,
Repousa lá no Céu eternamente
E viva eu cá na terra sempre triste.
Se lá no assento etéreo, onde subiste,
Memória desta vida se consente,
Não te esqueças daquele amor ardente
Que já nos olhos meus tão puro viste”.
Claro, Camões acreditava no céu e na sobrevivência além da morte. Essa inimiga que não tem o poder de matar o amor... Nem todo mundo é tão aventurado, nem todos têm a felicidade de crer. Como aquele amigo meu, que me dizia ao telefone: “Eu continuo o mesmo que você conheceu. Gostaria de crer como você, mas não consigo...”
Este aqui é um crente de outro tipo: o ateu que fica triste por não crer. No seu caso, saudoso Saramago, a situação parece outra. Você chegava a se gabar de falta de fé, como se fosse uma medalha de mérito. Declarou que levou vantagem com isso, como quando afirmou: “O meu ateísmo facilitou, e muito, na criação do Evangelho. Se fosse católico, teria que aceitar as versões bíblicas, sem me opor a nada. Como ateu, leio os Evangelhos de um ponto de vista mais livre, como se fosse um grande livro de história. O meu ateísmo não é destrutivo, mas sim crítico”.
Natural, não deixa de ser interessante que um ateu como você ficasse tão atento a Deus e sua propalada indiferença ao sofrimento deste mundo. Como você disse, “sou ateu, mas não sou tolo! A sociedade onde cresci e onde vivemos não se concebe sem Deus. Na arte, na linguagem, na cultura popular e erudita a religião cristã está presente. Eu não creio em Deus. Mas se uma pessoa que está ao pé de mim acredita em Deus, então Deus existe para mim através da realidade que é essa pessoa”. Sabe, Saramago, estou curioso por saber como se sente na vida eterna aquele que sempre a negou. Agora, você não precisa mais crer. Agora, você “sabe”. Sabe mais do que todos nós, que ainda precisamos do ato de fé para encontrar sentido nesta vida.
Quem lê “A Peste”, de Camus, e o seu próprio “Ensaio sobre a cegueira” (inspirado em Camus, não?) é impelido a “crer” em uma espécie de destino que agita as pessoas como marionetes, como barquinhos de papel arrastados pela enxurrada da existência. Nada faz pensar em um Pai amoroso que acompanha passa a passo a caminhada dos filhos neste mundo. Sartre, o nauseado, aplaudiria os dois.
Agora, que você deixou esta vida, já não precisa mais de ensaios sobre a cegueira. No limiar que você transpôs, a estreita passagem pelo desfiladeiro da morte, eu creio que você viu a luz. A Luz maiúscula que ilumina todo homem que vem a este mundo.
Por isso é que a morte é importante. Joga os ensaios no lixo e os troca pelo drama definitivo. Neste, os papéis são vividos pra valer, sem fingimentos de ator.
Sei que você está arrependido. Espero que tenha sido bem acolhido. Aposto que Deus não lê livros desesperados...
1 Licenciado em letras – Português e Francês pela FFCL da Fundação Rosemar Pimentel, Barra do Piraí, RJ. Professor de Artes e Ciências Humanas. É membro da Comunidade Católica Nova Aliança, evangelizador, compositor, autor de vários livros de catequese e poesia, tradutor de francês, italiano e espanhol, colabora em vários jornais e revistas.