Antônio Carlos Santini 1
E-mail: santini@novaalianca.com.br
Em 1945, as bombas-A lançadas sobre o Japão deixaram 250.000 mortos. Mais
ou menos o mesmo número de pessoas atingidas pela catástrofe atômica de Chernóbil, na Ucrânia, em 1986. Agora, vem à luz o desastre de Semipalatinsk, no Cazaquistão, onde a URSS realizou mais de 450 explosões nucleares. Como pano de fundo, a irresponsabilidade dos cientistas a serviço do poder político.
Crime e silêncio
Reportagem do jornal “El Mundo” [13/04/2010] fala da tragédia oculta de Semipalatinsk [hoje, Semey], no Cazaquistão. Nesta região, utilizada pelo governo soviético como sítio de experiências atômicas, cerca de 1.300.000 pessoas foram afetadas pela radiação. Ali se verifica também a mais alta taxa de suicídios do país. A proporção de mutações no DNA humano chega ao dobro do que ocorre em outras regiões.
No chamado Polígono de Palatinsk, entre 1949 e 1989, a URSS fez realizar secretamente 86 explosões nucleares na atmosfera, 30 sobre a superfície e 340 explosões atômicas subterrâneas. Nem uma só palavra sobre o desastre chegou, à época, à imprensa mundial.
A terra envenenada
Segundo informa a jornalista Amanda Figueras, enviada especial de “El Mundo” ao Cazaquistão, a cidade mais próxima do polígono atômico, atualmente, chama-se Kurchatov, em homenagem ao pai da bomba soviética. Ela vê o local com aspecto fantasmagórico, apesar da tentativa de dinamização realizada pelo Governo. São dezenas de edifícios abandonados, com a terra coberta de neve e barro, em tons de chumbo, cinza e melancolia.
Ali se verifica o maior índice de suicídio infantil de todo o país. Os dados do Hospital Oncológico e do Centro de Pesquisa da Radiação advertem que a alta incidência de câncer é devida também à indústria de mineração e extração de petróleo, pois o material extraído do solo permanece contaminado pelos resíduos nucleares. São comuns as malformações de embriões. A conceituada revista “Science” publicou um estudo que atesta frequentes mutações do DNA nos habitantes de Semey, em uma taxa duas vezes maior que a do restante do país. Na época das explosões, generalizaram-se os tumores do aparelho digestivo e reprodutivo, afetando igualmente a tireoide e os pulmões.
Quando as pessoas afetadas conseguem que uma junta médica estabeleça a ligação entre uma enfermidade e a radiação, elas têm direito a uma pensão governamental e ao tratamento. Para os especialistas, não é possível prever o que ainda está por acontecer com as gerações futuras.
Um mundo sem armas?
Na Cúpula de Segurança Nuclear, realizada em Washington, em abril de 2010, o Cazaquistão se apresentou como exemplo no caminho para a energia nuclear com fins pacíficos. Na mesma ocasião, o secretário-geral da ONU, Ban-Ki-moon, valeu-se do exemplo de Palatinsk para pressionar pela completa abolição de armas nucleares no planeta.
O novo pacto de redução de armas estabelecido entre o Presidente Obama e o Governo russo é um passo a mais em direção à antiga meta da Organização das Nações Unidas. Por sua vez, o presidente do Cazaquistão, Nursultan Nazarbayev, fechou em 1991 o centro nuclear de Palatinsk e se livrou de mais de cem ogivas nucleares ali instaladas. Um tratado internacional seria depois assinado, tornando livre de armas nucleares a Ásia Central.
Segundo informa a Agência Reuters, o Presidente Barack Obama apresentou, no dia 13 de abril, uma revisão da estratégia nuclear do país, com os EUA se comprometendo a não desenvolverem novas armas nucleares, nem usar as já existentes contra Estados que não tenham armas atômicas.
Atualmente, a ONU colabora no processo de descontaminação do solo, dos rios e dos lagos do Cazaquistão. Mas permanece no ar uma profunda desconfiança em relação aos homens de ciência que não hesitam em utilizar o seu conhecimento e suas técnicas em favor dos tiranos de plantão. E contra o homem, é claro...
1 Licenciado em letras – Português e Francês pela FFCL da Fundação Rosemar Pimentel, Barra do Piraí, RJ. Professor de Artes e Ciências Humanas. É membro da Comunidade Católica Nova Aliança, evangelizador, compositor, autor de vários livros de catequese e poesia, tradutor de francês, italiano e espanhol, colabora em vários jornais e revistas.