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QUANDO OS PAIS SE ARREPENDEM...


Antônio Carlos Santini1

E-mail: santini@novaalianca.com.br

 

Por volta dos 55 anos, no máximo 60, pais e mães transpõem um limiar. Os filhos já estão criados, já bateram asas e voaram para seu destino próprio. Poderia ser um tempo de alívio para os pais, com a sensação do dever cumprido. Tempo de liberdade, uma vez franqueados das tarefas familiares. Mas costuma ser a hora das grandes interrogações...

 

Quem trata do assunto é Louis de Courcy, em artigo publicado no jornal “La Croix” [28/04/2010]. Ele traz uma lista de perguntas que os pais se fazem nessa etapa de sua existência:

- Será que nós nos desempenhamos à altura de nosso dever de educadores?

- Que fizemos nós para que nossos filhos tenham escolhido caminhos tão inquietantes para nós?

- E que teria sido necessário, de nossa parte, para evitar que determinado filho se divorciasse? Ou acabasse depressivo e mal-sucedido em sua carreira?

Aqui dentro, estas e outras interrogações. Lá fora, uma sociedade cambiante, mudanças vertiginosas e imprevistas, o mundo do trabalho feito precário e incerto, a chocante mobilidade geográfica, a explosão de novas formas de relacionamento. Será que os pais poderiam ter controlado tudo isso?

 

Para Catherine Monnot, antropóloga e historiadora, os pais são inocentes. Não devem alimentar algum tipo de culpa, pois “cada geração se defronta com dados externos que ela de fato não controla”. Claro que algo permanece ao alcance dos pais. No mínimo, tentar desempenhar de modo ativo e tradicional o seu papel de pais, oferecendo certa estabilidade que sirva de referencial para a geração seguinte. Assim, o humano vem a compensar os constrangimentos sociais e econômicos de nosso tempo.

 

De fato, mesmo os pais de hoje não repetiram os modelos dos avós. Também os avós se encontraram um tanto chocados – decepcionados, quem sabe? – diante dos caminhos seguidos pelos filhos, os pais de hoje. E não podia ser diferente, da radiola ao MP3, da charrete ao Concorde, e o casamento “até que a morte nos separe” trocado por experiências de verão...

 

No entanto, a culpa ali está. E rói. De um lado, talvez, aflore a herança judeu-cristã, onde a culpabilidade se mostra inseparável do desenvolvimento do indivíduo, desde sua origem, como entende a psicóloga Béatrice Reiss. De outro lado, a evidência de que este mundo é imperfeito, e colaboramos todos com nossa própria imperfeição. Aliás, não seria orgulho e arrogância a pretensão de não errar jamais?

 

De qualquer modo, a idade madura afina a percepção humana a respeito de nosso próprio passado. Tomamos consciência de tantas oportunidades desperdiçadas, de tantas opções infelizes: é a consciência de nossa humanidade falível, lábil, fútil. Mas a mesma lucidez que traz o sentimento de culpa pode oferecer igualmente a sua superação, garante Françoise Meauzé, da Associação das Famílias Católicas: “Deus é maior que nosso coração”.

 

E já que não somos deuses, que tal amenizar nossas críticas diante das falhas de nossos filhos? Estamos todos no mesmo barco. Os erros de uns contribuem para a evolução de outros. A reflexão sobre nossa incompletude nos fará mais humanos. E no fim do caminho, aquilo que permanecer feio e torto ainda poderá merecer a imerecida graça do perdão. A alternativa? O inferno...

 

1 Licenciado em letras – Português e Francês pela FFCL da Fundação Rosemar Pimentel, Barra do Piraí, RJ. Professor de Artes e Ciências Humanas. É membro da Comunidade Católica Nova Aliança, evangelizador, compositor, autor de vários livros de catequese e poesia, tradutor de francês, italiano e espanhol, colabora em vários jornais e revistas.

 

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