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AMOR? UM DESAFIO!


Antônio Carlos Santini 1

E-mail: santini@novaalianca.com.br

 

O homem é relação. Homem e mulher. Quando o Criador afirma: - “Não é bom que o homem esteja só!”, sabe muito bem que nosso eu não nasce pronto, mas precisa crescer e amadurecer, o que é simplesmente impossível sem a presença do “Outro” que nos chama à relação.

 

Quem trata do assunto com elegância e maestria é o Patriarca de Veneza, Cardeal Angelo Scola, num envolvente estudo recém-lançado em co-edição da Editora O Lutador com o CCFC – Centro de Cultura e Formação Cristã da Arquidiocese de Belém, PA. Trata-se do livro “Homem & Mulher: o desafio do amor humano” [Belo Horizonte, 2010, 128p.]

 

Exatamente num momento em que a vivência do matrimônio cristão enfrenta os graves desafios e contestações de parte de uma sociedade secularizada, o Cardeal Scola examina os traços essenciais da pessoa humana, homem e mulher, para apontar serenamente como caminho para a felicidade uma especial reciprocidade entre os sexos.

 

Para o Autor, a resposta ao desafio de amar não está na afirmação exclusiva ou antagônica de um dos sexos. Nem mesmo pode ser reduzida a um tipo de complementaridade, mas se projeta na reciprocidade. “Para descobrir as linhas constitutivas do amor – diz Scola -, devemos destacar, mesmo que rapidamente, a sua fonte: o gesto criador do Pai. Ao criar o homem e a mulher, Deus quis participar-lhes sua própria natureza de comunhão, e imprimiu-lhes no coração um avassalador dinamismo de recíproca abertura. Eva é posta ao lado de Adão como sinal do radicalmente Outro, o Infinito: a destinação final do desejo humano”.

 

O Autor recorre com notável intimidade à literatura universal – nos poemas de Shakespeare, Dante, Claudel, Leopardi etc. – para trazer à luz a ânsia de infinito que está na base de todo amor humano. Nas palavras dos poetas e romancistas, “retomadas por inúmeras outras vozes da arte, da literatura e da música de todos os tempos”, Scola identifica uma vibração e uma ressonância de algo constitutivo da experiência humana: “Ninguém jamais poderá fazer-se por si mesmo, nem mesmo no caso em que – no inquietante cenário de fantasia científica que estão preparando para nós – viesse ao mundo como um produto de laboratório”.

 

Ao recordar o olhar extasiado da criança que descobre, pela primeira vez, o sorriso da mamãe, ou lembrando os dotes que brotam imprevistamente no rapazinho tímido a quem a mocinha falou de modo íntimo, Scola ilumina a necessidade de um tu para que o eu venha a florescer.

 

Entre outros temas, o Autor trata da diferença sexual, do papel central do corpo na relação, do movimento que vai do desejo à realização. Depois de valorizar o amor, sem excluir o importante papel do Eros, apresenta-nos a família como aquilo que ele chama de “a face concreta” do mistério nupcial.

 

Ao fim de cada capítulo, abrindo um dicionário todo pessoal, Scola aproveita para valorizar “palavras caídas em desuso” – como castidade, indissolubilidade, autoridade – e apresenta outras palavras que necessitam “ser reescritas”, como felicidade e liberdade, desejo e paternidade.

 

Ao criticar a mentalidade dominante a respeito do amor humano, que Scola define como “clima erótico invasivo”, ele aponta para as três raízes históricas do amor no Ocidente: o libertinismo, o romantismo e o atual consumismo. E comenta: “Ao abolir a diferença sexual, faz-se a abolição do outro, reduzido a simples corpo, uma máquina para o próprio prazer”.

 

No eixo da tese do Autor, o humano tem sua origem em um Outro e, por isso mesmo, só se realiza no outro. A insistência atual em negar essa alteridade essencial do homem e da mulher acabaria por oferecer desastrosas consequências para o futuro de todo o gênero humano.

 

A intenção profunda que moveu um cardeal da Igreja Católica a escrever um livro sobre o amor humano foi a de mostrar a “total conveniência do desígnio de Deus a respeito de pessoa, matrimônio e família, às exigências mais profundas do coração humano”. Certamente, a Pastoral da Família e os grupos de casais que se aglutinam em vários movimentos familiares encontrarão neste livro um riquíssimo material para estudo e reflexão, maravilhando-se diante do chamado à vida em comunhão que brota do coração da Trindade e se distribui sobre todos os casais.

 

Angelo Scola nasceu em 1941, em Malgrate, Milão. Foi ordenado sacerdote em 1970, colaborando ativamente na dinamização do movimento Comunhão e Libertação, além de figurar entre os fundadores da conhecida revista Communio. Doutor em teologia, defendeu sua tese sobre Santo Tomás de Aquino. Foi reitor da Universidade Lateranense (Roma) e presidente do Instituto Pontifício João Paulo II de Estudos sobre a Família. Desde janeiro de 2002, é o Patriarca da Arquidiocese de Veneza, Itália.

 

 

1 Licenciado em letras – Português e Francês pela FFCL da Fundação Rosemar Pimentel, Barra do Piraí, RJ. Professor de Artes e Ciências Humanas. É membro da Comunidade Católica Nova Aliança, evangelizador, compositor, autor de vários livros de catequese e poesia, tradutor de francês, italiano e espanhol, colabora em vários jornais e revistas.

 

 

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