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CARIDADE: O ROSTO AMOROSO DA IGREJA


Antônio Carlos Santini 1

E-mail: santini@novaalianca.com.br

 

“No início do Séc. IV, a fome e a doença assolavam o exército do Imperador Constantino. Pacômio, um soldado pagão, observava com assombro como muitos dos seus companheiros romanos ofereciam comida e assistência aos que precisavam de ajuda, socorrendo-os sem qualquer discriminação. Cheio de curiosidade, quis saber quem eram essas pessoas e descobriu que eram cristãos. Que tipo de religião era aquela – admirou-se – que podia inspirar tais atos de generosidade e humanidade? Começou a instruir-se na fé e, antes de o perceber, já estava no caminho da conversão.”

 

Este comentário é de Alvin J. Schmidt, citado na obra “Como a Igreja Católica construiu a civilização ocidental” [São Paulo, Ed. Quadrante, 2008, 222p.], livro de importância capital, assinado por Thomas E. Woods Jr., bacharel por Harvard e doutor por Columbia. Esta face da Igreja Católica não é algo acidental, ou reduzido a uma área geográfica, mas faz parte da própria natureza da única Igreja que Jesus Cristo fundou.

 

Vale lembrar as palavras do Papa Bento XVI em sua primeira encíclica: “Com o passar dos anos e a progressiva difusão da Igreja, a prática da caridade confirmou-se como um dos seus âmbitos essenciais, juntamente com a administração dos sacramentos e o anúncio da Palavra: praticar o amor para com as viúvas e os órfãos, os presos, os doentes e necessitados de qualquer gênero, pertence tanto à sua essência como o serviço dos Sacramentos e o anúncio do Evangelho. A Igreja não pode descurar o serviço da caridade, como também não pode negligenciar os Sacramentos nem a Palavra”. (Deus Caritas Est, 22.)

 

Até Voltaire, o sombrio iluminista que odiava a Igreja, manifestou sua admiração pela dedicação dos cristãos a serviço de um amor incomum: “Talvez não haja nada maior na terra que o sacrifício da juventude e da beleza com que belas jovens, muitas vezes nascidas em berço de ouro, se dedicam a trabalhar em hospitais pelo alívio da miséria humana, cuja vista causa tanta aversão à nossa sensibilidade. Tão generosa caridade tem sido imitada, mas de modo imperfeito, por gente afastada da religião de Roma”.

 

Ao longo dos séculos, o “pessoal da Igreja” – o mesmo pessoal que, aqui e ali, explode nas manchetes em função de eventuais escândalos – deu de presente à humanidade sofredora as mãos compassivas de São João de Deus e São Camilo de Lellis, São Vicente de Paulo, Madre Teresa de Calcutá e Irmã Dulce. Foi do “pessoal da Igreja” – expressão cunhada por Jacques Maritain – que brotaram as primeiras escolas dedicadas aos pobres, como na obra de São José de Calasanz, Santa Joana de Lestonnac, Santa Paula Montal, São Luís Orione e tantos outros que integram essa inumerável legião de apaixonados por Deus que acabam apaixonados pelo próximo. Entre eles, Dom Bosco, que se fez pai de uma indesejável multidão de pivetes, ou Damião de Veuster, que amou os temíveis leprosos até o extremo de se tornar um deles.

 

Diante disso, como entender a crítica zombeteira daqueles que acusaram a Igreja de ser “assistencialista” por distribuir pão à imagem do próprio Mestre? Será que a caridade de alguns incomoda a indiferença de tantos? Como fazer vista grossa à lembrança de Bento XVI acerca do “tríplice dever” da Igreja: anúncio, celebração e serviço da caridade? Kerygma-martyria / leiturgia / diakonia “são deveres que se reclamam mutuamente, não podendo um ser separado dos outros”. (DCE, 25.) Além do anúncio acompanhado do testemunho, além das celebrações sacramentais, a dívida da caridade é elemento que, uma vez ausente, desfigura e amputa o Corpo de Cristo, que é a Igreja.

 

Graças a Deus, os fiéis não se dobram a esse tipo de crítica. Daí, a recente notícia sobre a participação da Igreja Católica na assistência aos que sofrem, através de centenas de entidades, como a Cáritas, a Ajuda à Igreja que Sofre, a Adveniat, ao lado de um número incontável de congregações e novas comunidades que se dedicam aos órfãos e aos idosos, às mães solteiras e aos aidéticos, aos dependentes de drogas e aos imigrantes, todos estes contemplados como a face concreta de Cristo a atravessar o nosso caminho.

 

Segundo informa o Pontifício Conselho para a Pastoral da Saúde, no marco de seu 25º aniversário de fundação, a Igreja Católica administra e serve 26% dos centros hospitalares e de ajuda na área da saúde existentes em todo mundo.
A Igreja tem 117 mil centros de saúde, incluindo hospitais, clínicas e casas de alojamento para órfãos; assim como 18 mil dispensários e 512 centros para a atenção de pessoas com lepra.

 

Quando meu pai nasceu na Itália, sua mãe morreu no parto e meu avô combatia no estrangeiro por sete anos, foram as Irmãs Vicentinas que cuidaram do menino em tempo de guerra e o devolveram lindo e sadio ao ex-combatente. Este bem, nada pode apagar. Nenhuma ideologia pode destruir, nenhum governo anticlerical pode negar...

 

1 Licenciado em letras – Português e Francês pela FFCL da Fundação Rosemar Pimentel, Barra do Piraí, RJ. Professor de Artes e Ciências Humanas. É membro da Comunidade Católica Nova Aliança, evangelizador, compositor, autor de vários livros de catequese e poesia, tradutor de francês, italiano e espanhol, colabora em vários jornais e revistas.

 

 

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